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A Sangue Frio: a obra-prima de Truman Capote é top 50 na Amazon

A Sangue Frio, originalmente In Cold Blood, é um livro publicado pela primeira vez no ano de 1966, no qual o autor, Truman García Capote (1924-1984), narra os detalhes de um crime real e brutal, o assassinato da família Clutter, que ocorreu na cidade de Holcomb, no Kansas, Estados Unidos, sete anos antes, em 1959.

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Na versão brasileira atual, da editora Companhia das Letras, A Sangue Frio tem 440 páginas. Enquanto isso, a versão e-book para Kindle tem 1.9 MB e pode ser lida entre 10 e 15 horas. Já o audiolivro conta com 15 horas e 22 minutos de duração. Na Amazon, a obra tem hoje, 5 de setembro de 2025, 1.663 avaliações de clientes, e possui como nota 4.8 estrelas em 5 possíveis. É top 52 na categoria “crimes reais” e “biografias e memórias”.

A história foi escrita no estilo jornalismo literário, também chamado como new journalism e literatura de não-ficção. Este estilo, que possui raízes que se entrelaçam com o realismo literário, e que mescla jornalismo investigativo com técnicas narrativas do romance, surgiu nos EUA nos anos 1960, tendo como principais expoentes os jornalistas Tom Wolfe, Gay Talese e Norman Mailer, além do próprio Capote.

Truman Capote, autor de A Sangue Frio, aparece sentado com o rosto apoiado na mão direita e um cigarro entre os dedos. Ele veste um casaco escuro e encara a câmera com expressão introspectiva. A imagem em preto e branco foi registrada em 1959, ano em que começou a investigar o assassinato da família Clutter para escrever sua obra-prima do jornalismo literário.
O autor de A Sangue Frio, Truman Capote, em 1959. Foto: Roger Higgins | New York World-Telegram and Sun | Library of Congress | domínio público; –
Capa do livro A Sangue Frio | Companhia das Letras; – Mockup | Canva

Em A Sangue Frio, Capote descreve as cenas de maneira envolvente, quase cinematográfica. Usando as técnicas do jornalismo literário como diálogos reais, estrutura de romance e aprofundamento psicológico dos personagens, ele produz uma das maiores obras de sua carreira e também do jornalismo. Continue lendo.

A Sangue Frio: do que se trata?

Em 1959, o ex-integrante da Marinha Mercante e ex-soldado do Exército dos EUA, que havia servido na Guerra da Coreia, Perry Edward Smith (1928-1965), e o mecânico de automóveis, Richard Eugene Hickock (1931-1965), ambos estadunidenses, que tinham se conhecido na Penitenciária Estadual do Kansas onde estiveram presos por furto e falsificação de cheques, planejaram roubar o cofre da fazenda da família Clutter, em Holcomb, no Kansas. Na prisão, eles ouviram um antigo funcionário de Herbert Clutter dizer que este guardava uma grande quantidade de dinheiro lá.

Movidos por essa história, Hickock e Perry foram até a casa da família Clutter tão logo saíram da prisão. Chegando lá, eles acordaram Herbert e Bonnie, Nancy e Kenyon Clutter, respectivamente pais e filhos, e em seguida vasculharam o lugar a procura do dinheiro. Para a decepção deles, encontraram apenas 42 dólares, e descobriram que ali não havia cofre algum.

A decepção rapidamente transformou-se em medo de serem identificados e delatados pela família à polícia. Teriam que voltar para a prisão, de onde haviam acabado de sair. Então, tiveram a macabra ideia de executar todos os membros da família Clutter, um por um. E foi o que fizeram. E fugiram. Foram para o México, mas tiveram que voltar porque não tinham mais dinheiro. Seguiram para Las Vegas. E foi aí que, no mesmo ano do crime, foram presos novamente. No ano seguinte, foram julgados e condenados à pena de morte por enforcamento. A pena foi executada em abril de 1965, na Penitenciária Estadual do Kansas.

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Como Capote produziu A Sangue Frio?

Capote demorou quase seis anos para investigar e apurar a história que ele conta no livro A Sangue Frio. Ele viajou para Holcomb na companhia da escritora Harper Lee. Entrevistou moradores da cidade, policiais, familiares dos Clutter e, além disso, os próprios Hickock e Smith. Fez isso durante os cinco anos em que estes permaneceram esperando a execução de suas penas. Capote também teve acesso à uma extensa documentação. Ele leu diários pessoais, cartas, relatórios psiquiátricos e registros judiciais. Aproximou-se emocionalmente de todo mundo, incluindo dos assassinos.

Breve biografia de Truman Capote

Como é que Truman Streckfus Persons virou Truman García Capote? Como um homem que tinha um sobrenome com raízes alemãs e inglesas passou a ser denominado por um sobrenome com raízes ibéricas? Eu sempre quis saber isso.

Truman nasceu como Streckfus Persons em 30 de setembro de 1924. Se estivesse vivo, ele completaria 101 anos no final deste mês. Filho de um casal instável, Archulus Persons e Lillie Mae Faulk, ele ainda era uma criança quando seus pais se separaram.

Sabemos, por isso, de onde veio o Persons, mas Streckfus é um mistério. Talvez seja o nome de algum familiar. Pode ter sido uma homenagem. Seja como for, após a separação dos pais, Truman foi morar com parentes no Alabama. E aos nove anos partiu para Nova Iorque a fim de viver perto de sua mãe e do padrasto.

Em 1924, o marido de Lillie Mae Faulk era o empresário cubano do ramo têxtil, Joseph García Capote. Este Capote, o sênior, adotou o na época júnior Truman que, por isso, passou a ser chamado de Truman García Capote. O jornalista, por sua vez, retribuiu ao usar o nome Truman Capote como assinatura. Tá aí, minha gente, o fato.

Em 1935, Truman Capote começou a estudar na Escola Trinity. Já em 1939, ingressou na Greenwich High School. Ele finalizou os estudos na Escola Dwight. E aos 17 anos começou a trabalhar no jornal The New Yorker. Atuou também como contista em revistas como a Harper’s Bazaar, The Atlantic Monthly e Mademoiselle. Em 1948 lançou Outras Vozes, Outros Lugares, o seu primeiro livro. Ele também escreveu novelas, teatro e roteiros. Seu maior êxito, porém, foi A Sangue Frio, que é também uma obra-prima do jornalismo literário.

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O jornalista tinha excelente memória. Ele conseguia conversar com naturalidade com as pessoas e, só depois, recordava e tomava nota de tudo o que havia sido dito. Para escrever o texto do livro, ele usou técnicas de romance como narrador onisciente indireto, suspense narrativo gradual, flashbacks estruturais, diálogos verossímeis diretos e psicologia densa de personagens, entre outras. Dessa maneira, ele conseguiu criar uma narrativa envolvente, emocional e empática, com alternância de pontos de vista, sem deixar de lado a boa e velha precisão do jornalismo. Ele revela traumas, dilemas morais, faz a autópsia completa do crime e das mentes das vítimas e dos assassinos.

Por que isso importa para o jornalismo?

A obra-prima de Capote, A Sangue Frio, é um exemplo contundente do poder do jornalismo literário. Ao transcender a exposição factual, anexando a ela as técnicas da narrativa ficcional, o jornalista expandiu os limites e ajudou a evoluir o jornalismo.

Enquanto o jornalismo tradicional prega a objetividade extrema, o literário acrescenta a subjetividade às narrativas. Capote fez isso com maestria. Mas não sem antes mergulhar em uma apuração exaustiva, que o ajudou a entrar na mente dos personagens reais da história.

Com A Sangue Frio, Capote influenciou gerações de jornalistas, gerou debates éticos sobre o envolvimento emocional do repórter com os personagens da história, e até abriu portas para a criação de novos cursos de jornalismo. No Brasil, para se ter uma ideia, havia até bem pouco tempo atrás uma pós-graduação em jornalismo literário coordenada pelo jornalista Edvaldo Pereira Lima.

Enfim, em 2026, A Sangue Frio vai completar 60 anos. Uma obra que dura tanto tempo assim e ainda faz sucesso é porque tem o seu valor. É uma obra-prima, de fato. E os leitores sabem reconhecer isso. Resta-nos esperar que surjam novos jornalistas capazes de criar narrativas de tão alta qualidade. Por mais jornalistas “raiz” como Truman Capote.

Marinaldo Gomes Pedrosa

Marinaldo Gomes Pedrosa

Marinaldo Gomes Pedrosa é bacharel em Comunicação Social com ênfase em Jornalismo pela UniSant'Anna. É registrado como Jornalista pela Superintendência Regional do Trabalho e Emprego sob o MTB número 0074698/SP desde 27 de setembro de 2013. Ele também é editor na Magpe Books.

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