O jornalismo científico vem ganhando contornos cada vez mais fortes no mundo, mas não é por um bom motivo. É, na maioria das vezes, a crise climática quem tem atraído profissionais para essa área atualmente. É uma questão, portanto, de extinção em massa e não de vocação. Certamente, ser um eco chato não é o sonho de uma vida, nenhuma vida, mas hoje é uma demanda, necessidade e urgência.
Nesta pegada, venho hoje publicar este artigo aqui no Jornalismo Pro com algumas ideias sobre o jornalismo científico. Trago conceitos breves, minhas opiniões preconceituosas, menciono alguns livros, cursos e prêmios. Acompanhe a partir de agora.
Índice
O que é jornalismo científico?
Jornalismo científico é uma vertente, continuação ou ramificação do jornalismo tradicional que tem como princípio traduzir o vocabulário acadêmico, técnico e hermético dos pesquisadores, especialistas e cientistas em uma linguagem descomplicada, acessível e compreensível para os leigos, aprendizes e público em geral.
Sendo assim, o profissional que atua nesta área precisa ter repertório suficiente para entender os discursos dos cientistas e, além disso, para transformar esses discursos em narrativas cativantes voltadas para um público que não entendem nada ou quase nada sobre o assunto em questão.

Mas espere. Não é só isso. O jornalista científico não é um mero tradutor de dialetos. Ele não pode, em hipótese alguma, ser um reprodutor de releases provenientes das assessorias de imprensa dos institutos de pesquisa. Ao contrário disso, ele deve ser o primeiro a questionar as metodologias, checar possíveis equívocos dos pesquisadores, verificar a autenticidade dos fatos, consultar fontes diversas e até contrárias.
Ao contrário da moda geral da comunicação na internet, o jornalismo científico deve evitar o sensacionalismo. Sua narrativa deve tornar dados complexos em informações claras. Isso permitirá aos cidadãos tomarem suas próprias decisões devidamente embasadas sobre saúde, ambiente, tecnologia e ciência em geral.
Jornalismo científico no Brasil
Ciência, no Brasil, não é muito respeitada. Pelo que estamos observando, o Brasil ainda é o país do futebol, ao menos enquanto tivermos a seleção com o maior número de copas do mundo. Jogadores de futebol por aqui têm mais status e recursos que os cientistas.
Não estou dizendo que isso é certo e nem errado, mas apenas que essa condição reflete no jornalismo. Temos muito mais revistas, jornais e portais falando sobre futebol do que sobre ciência e tecnologia. E as publicações que abordam futebol têm muito mais quórum do que as que tratam de temas científicos. Essa comparação talvez não seja necessária e até preconceituosa da minha parte, porém, ela revela exatamente onde está a atenção, o foco dos brasileiros.
Dito isso, posso agora apontar algumas publicações que atuam no ramo do jornalismo científico. A Revista Pesquisa FAPESP é, provavelmente, a melhor publicação de jornalismo científico do Brasil. Lado a lado com ela temos o Jornal da USP, que também é bastante relevante.
Temos também algumas publicações de banca e portal no ramo, as denominadas revistas pop science. Nesta categoria a Superinteressante, do Grupo Abril, e a Galileu, da Editora Globo, talvez sejam as mais conhecidas.
Mas se os brasileiros gostassem de ciência o mesmo tanto quanto gostam de futebol, daí provavelmente teríamos muitas mais publicações científicas importantes nacionalmente e internacionalmente. Seríamos o país da ciência.
Cursos, livros e prêmios
Não há muitos cursos, livros e prêmios na área de jornalismo científico no Brasil. Entretanto, aqui vão três de cada para o seu conhecimento, se é que você já não saiba. Confira nos cards a seguir.
3 cursos de jornalismo científico
- Pós-graduação (grátis): o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas (Labjor-Unicamp) mantém uma pós-graduação em jornalismo científico desde 1999. É uma especialização lato sensu gratuita, com 8 disciplinas e duração de 3 semestres. O último processo seletivo aconteceu entre março e junho de 2025, quando foram aprovados cerca de 40 candidatos. Interessados devem ficar de olho na página oficial do curso para se inteirar sobre as próximas edições.
- Science Journalism Master Classes (grátis): uma série de cursos livres de jornalismo científico por e-mail produzidos no contexto do projeto The Open Notebook, que é financiado por uma bolsa da Fundação Kavli. Você se inscreve, escolhe a periodicidade, que pode ser diária ou semanal, e recebe as aulas gratuitamente na sua caixa de entrada. O conteúdo é em inglês, mas facilmente traduzível para o português com as ferramentas do Google. Cada aula requer 30 a 60 minutos para ser concluída.
- Curso online de jornalismo científico (grátis): desenvolvido pela World Federation of Science Journalists (WFSJ) em cooperação com a Science and Development Network (SciDev.net), este treinamento está disponível na internet em 10 idiomas, incluindo o português. Conta com 10 aulas sobre temas como busca de histórias científicas, entrevistas, habilidades de escrita, conceito de ciência, controvérsias científicas, política científica, fotografia de ciência, etc. Não requer cadastro ou login. É só chegar e fazer.
3 livros de jornalismo científico
- Jornalismo científico (2002): este é um dos mais de 20 livros da coleção Comunicação da editora Contexto. Foi escrito pela doutora Fabíola Oliveira. Apresenta um histórico da área. O formato com capa comum possui 90 páginas na dimensão 14 x 21 cm.
- Formação e informação científica: jornalismo para iniciados e leigos (2005): livro de autoria do doutor Sérgio Vilas Boas e de publicação da Summus Editorial. Aborda políticas de fomento à ciência, os cientistas e outros temas. Tem 128 páginas em 14 x 21 cm.
- Journalism, science and society: science communication between news and public relations (2007): obra do doutor Martin W. Bauer sobre o papel do jornalista na comunicação científica. Editora Routledge, 304 páginas em 16 x 23 cm.
3 prêmios de jornalismo científico
- Prêmio IMPA de Jornalismo: organizado todo ano desde 2018 pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA). Reconhece os criadores de reportagens que aproximam ciência e matemática do público comum.
- AAAS Kavli Science Journalism Awards: o SJAwards-AAAS condecora jornalistas científicos de todo o mundo. Foi criado em 1945 pela American Association for the Advancement of Science (AAAS) e tem apoio da Kavli Foundation desde 2009.
- Prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica: criado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em 1978, o PJRDCT reconhece jornalistas e pesquisadores que contribuem para aproximar ciência e sociedade.
Aí estão os cursos, livros e prêmios de jornalismo científico que consegui encontrar na web. Espero que isso possa ser de alguma utilidade para você, leitor, porque deu trabalho para encontrar e escrever. Espero que meu trabalho não tenha sido em vão.
Conclusão
Trabalhar com ciência e com jornalismo científico no Brasil é como fazer crescer planta na areia do deserto. A terra aqui é muito “plana” ainda e muito árida para a ciência. Mas não podemos desanimar. Eu sei, vai ser difícil não desanimar depois de ter lido esse texto. Choremos em posição fetal, então, mas sem perder a esperança.



