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Hiroshima: um livro-reportagem sobre a primeira bomba atômica usada em guerra

Hiroshima (1946) é uma reportagem veiculada integralmente na revista The New Yorker na edição do dia 31 de agosto de 1946 pelo jornalista estadunidense John Hersey (1914-1993) que, sob a perspectiva de seis sobreviventes, descreveu como foram os momentos imediatamente seguintes à explosão da bomba atômica Little Boy – a primeira arma nuclear a ser usada em uma guerra – sobre a cidade japonesa de Hiroshima em 6 de agosto de 1945. Em novembro de 1946, devido à repercussão extraordinária da reportagem, ela foi publicada novamente, mas em formato de livro, pela editora Alfred A. Knopf.

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Desde seu lançamento, o livro-reportagem Hiroshima vem sendo traduzido, reeditado, republicado e reimpresso centenas de vezes, em diferentes países, incluindo no Brasil, além de já ter sido lançado em e-book e audiobook. Em minhas mãos tenho a 1ª edição de 2002 da Companhia das Letras, em português, que no momento em que fiz a compra, provavelmente em 2007, já estava na 4ª reimpressão. Ela foi traduzida por Hildegard Feist, possui capa produzida por João Baptista da Costa Aguiar, a revisão de Ana Maria Barbosa e Isabel Jorge Cury, a preparação de Beti Kaphan, e o posfácio de Matinas Suzuki Jr. Conta com 172 páginas no formato 20.8 x 13.8 x 1.6 cm.

Um livro-reportagem, para quem não conhece, é uma reportagem ampliada, geralmente com várias camadas de contextualizações e, portanto, muito mais aprofundada, podendo apresentar os pontos de vista das vítimas, de especialistas, protagonistas, coadjuvantes e/ou algozes, entre outros, em uma história.

A produção do livro-reportagem Hiroshima

A obra possui cinco capítulos. Os quatro primeiros intitulados “Um clarão silencioso”, “O fogo”, “Investigam-se os detalhes” e “Flores sobre ruínas” foram publicados em 1946. Eles decorrem das entrevistas que Hersey fez entre os dias 25 de maio e 12 de junho de 1946 com o pastor metodista Reverendo Kiyoshi Tanimoto; a viúva de um alfaiate, Sra. Hatsuyo Nakamura; o médico Dr. Masakazu Fujii; o sacerdote jesuíta alemão, Wilhelm Kleinsorge; o cirurgião no Hospital da Cruz Vermelha, Dr. Terufumi Sasaki; e a funcionária de uma fábrica, Toshiko Sasaki, todos eles sobreviventes da bomba.

Em 1985, Hersey retornou à Hiroshima e entrevistou novamente os sobreviventes, exceções feitas ao Dr. Masakazu Fujii e ao padre Wilhelm Kleinsorge, que já não estavam mais vivos, e produziu o quinto capítulo do livro-reportagem Hiroshima, que ele chamou de “Depois da catástrofe”.

Um ano após a explosão das bombas atômicas nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, o fundador da revista The New Yorker e o editor William Shawn perceberam que haviam muitas matérias técnicas sobre os artefatos, mas nenhuma sob o ponto de vista humano. Então, resolveram enviar Hersey ao Japão para fazer esse trabalho.

Mockup com a capa do livro-reportagem Hiroshima de John Hersey.
O livro-reportagem Hiroshima, de John Hersey, é um marco do jornalismo literário. Foto: Mockup Canva | com capa oficial da Companhia das letras

Hersey havia começado a carreira de jornalista na revista Time, em 1937. Depois, quando a guerra começou, cobriu batalhas na Europa e na Ásia, reportando-as também para a Life e The New Yorker. A caminho de Hiroshima, em 1946, ele teria lido o livro de ficção “The bridge of San Luis Rey” (1927) de Thornton Wilder (1897-1975), sobre a queda de uma ponte no Peru, história na qual o autor criara um personagem que investiga o sentido das vidas de cinco vítimas do acidente.

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Hersey, então, teria utilizado a mesma abordagem de Wilder para escrever Hiroshima. A diferença crucial é que a obra de Wilder é uma ficção enquanto a de Hersey é sobre um fato real, uma história de não-ficção. A abordagem romanceada ajudou a alavancar, na época, o jornalismo literário, também chamado de novo jornalismo.

Impactos do livro de Hersey

O livro Hiroshima de John Hersey causou diferentes impactos sociais. A princípio, gerou comoção pública nacional e, posteriormente, internacional. O relato humano dos sobreviventes mexeu com as emoções dos leitores, que ficaram horrorizados com o potencial destrutivo das armas nucleares.

A comoção pública nunca vem sozinha. Ela geralmente aumenta a pressão sobre algo ou alguém. No caso, ela contribuiu para o debate sobre desarmamento nuclear, e também sobre a ética no uso desse tipo de tecnologia nas guerras. Ele transformou Hiroshima em um símbolo global de resistência contra a guerra nuclear.

Enfim, a reportagem de Hersey na The New Yorker inspirou filmes, peças, documentários e outras obras. Ela também é utilizada no setor de educação. E no jornalismo, influenciou editores de outras revistas a investirem em reportagens aprofundadas. Ainda hoje, a obra motiva gerações de novos comunicadores, sendo vista como um dos marcos do jornalismo literário.

Marinaldo Gomes Pedrosa

Marinaldo Gomes Pedrosa

Marinaldo Gomes Pedrosa é bacharel em Comunicação Social com ênfase em Jornalismo pela UniSant'Anna. É registrado como Jornalista pela Superintendência Regional do Trabalho e Emprego sob o MTB número 0074698/SP desde 27 de setembro de 2013. Ele também é editor na Magpe Books.

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