Nas últimas três décadas, mudanças profundas na indústria da comunicação multiplicaram exponencialmente os veículos de imprensa, causando saturação no setor. Em contrapartida, surgiram também novas formas de cobrar os leitores pela produção e publicação do conteúdo jornalístico, entre às quais os modelos de assinatura, programas de membros e financiamento coletivo via internet.
Além da venda de espaços publicitários, essas novas formas de cobrar pelas notícias e reportagens têm permitido até aqui que novos veículos de comunicação pequenos e médios surjam no cenário da imprensa e, em alguns casos, até sobrevivam de forma sustentável.
Bem, antes que alguém reclame, é bom informar que estamos no capitalismo, o que significa que de alguma forma o conteúdo jornalístico precisa se transformar em valor, no caso, monetário. Como dizem os neoliberais, “não existe almoço grátis”. Pois os jornalistas também precisam pagar o próprio almoço.
Paywalls Inteligentes: quando o conteúdo vira valor
Paywall ou, muro de pagamento, é como chamamos às ferramentas que permitem restringir o acesso a determinados conteúdos ou a partes deles, de forma que os leitores só podem ter acesso se fizerem um pagamento. MemberPress, s2Member e Paid Memberships Pro, por exemplo, são algumas dessas ferramentas.
Como obter assinaturas
Implementar uma ferramenta de paywall no seu site de notícias não vai fazer com que todos os leitores se tornem assinantes da noite para o dia. Para obter assinaturas, você precisa facilitar as coisas. Experimente, por exemplo:
- Transparência: explique o motivo pelo qual o conteúdo está sendo cobrado. Um motivo comum é o de sustentar o jornalismo independente;
- Planos: oferecer planos mensais, anuais, com ou sem benefícios extras, com diferentes preços pode gerar maior compatibilidade e ampliar sua base de assinantes;
- Promoções: oferecer um período gratuito para experimentação ou criar promoções sazonais, forneces descontos para estudantes, etc., pode ser preponderante para angariar assinantes.
Apesar de idealistas, os jornalistas não são vicentinos, isto é, não trabalham para fazer caridade. Entretanto, nesses tempos de internet, os leitores se acostumaram a ler notícias de graça. Por isso, eles podem resistir à ideia de pagar para ler notícias.
Este, de fato, pode ser um entrave ao uso de paywall em sites de jornalismo de pequeno porte. Mas os portais de conteúdo de médio e grande portes como a Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo, The New York Times e El País, por exemplo, já vêm usando essa estratégia com sucesso há muito tempo.
Seja como for, alguns sistemas de paywall possibilitam adaptar o seu conteúdo ao comportamento de cada leitor. Logo, se um leitor acessa com mais frequência reportagens sobre esportes, o sistema pode oferecer assinaturas com foco nesse tema para ele, aumentando as chances de adesão.
Programas para membros: fidelizando os leitores
Assim com as ferramentas de paywall, os programas de membros funcionam por meio de assinaturas. Entretanto, além da assinatura eles oferecem a possibilidade do leitor participar de uma comunidade com benefícios exclusivos. Os leitores, nesse caso, podem ter acesso a grupos, fóruns, aplicativos, newsletters especiais e outros recursos que agregam mais valor ao conteúdo e mais credibilidade ao veículo de comunicação. No Brasil, o Nexo Jornal e o Núcleo Jornalismo trabalham dessa forma.

Nos programas para membros, o grande trunfo é o foco na fidelização de leitores. Afinal de contas, é muito mais fácil manter um leitor como assinante do que conquistar um novo. Em geral, para conquistar um novo assinante é necessário influenciá-lo com conteúdo altamente relevante, o que pode demorar muito tempo. Enquanto isso, para manter um leitor que já é assinante basta gerar nele a percepção de ele está recebendo mais do que apenas notícias.
Para jornalistas que atuam com conteúdo escrito, Custom Management Systems (CMSs) como o Substack e o Ghost.org possibilitam a criação de newslatters pagas. Esses CMSs são bem mais simples de usar do que o WordPress. O Núcleo Jornalismo, por exemplo, usa o Ghost.org. Enquanto isso, para os jornalistas do audiovisual, o Youtube é atualmente a melhor plataforma para obter assinantes.
Financiamento coletivo: sustentado pela comunidade
O crowdfunding ou, em português, financiamento coletivo, é uma estratégia com a qual você pode transformar o leitores do seu veículo de informação em patrocinadores. Essa abordagem deve ser realizada a partir de plataformas como a Catarse, Apoia.se e Patreon, entre outras.
A ideia é criar uma rede de apoio com a contribuição monetária de pessoas que acreditam em uma causa, que no caso é a mesma do seu veículo de imprensa. Esse apoio transforma leitores que consomem notícias passivamente em pessoas que lutam lado a lado com você. Basicamente isso. Um exemplo brasileiro é o website de notícias Ponte, que chegou a arrecadar R$74 mil em uma campanha de crowdfunding em 2017.
Para conquistar adeptos, as plataformas de financiamento coletivo possibilitam que você ofereça recompensas como um e-book exclusivo, um livro impresso, acesso antecipado a reportagens, convites para participação em eventos, certificado que reconhece o leitor como apoiador, entre outras.
Assim como o programa para membros, o financiamento coletivo permite criar uma comunidade, na qual os apoiadores podem se sentir uma parte importante do projeto. Isso, por sua vez, pode aumentar o engajamento e a fidelidade, o que irá manter a sustentabilidade do veículo de informação por um longo tempo.
Jornalistas não são vicentinos
As redes sociais, os sites de buscas, boa parte dos leitores pensam que os jornalistas deveriam trabalhar de graça para eles. Bem, isso até poderia realmente acontecer se nós não vivêssemos em um sistema capitalista. A ideia de que a veiculação de informação é caridade empobrece o jornalismo e precariza a profissão.
Em um ambiente político, social e econômico que tenta minar o jornalismo, é importante para os veículos de informação, sobretudo os de pequeno porte, buscarem formas de financiamento. É preciso ter uma estratégia de sustentabilidade.



