A maior parte, senão todas as mudanças no jornalismo nas últimas três décadas, aconteceram por causa do surgimento de novas tecnologias, entre as quais a internet, os dispositivos móveis e as inteligências artificiais. Vamos dar uma revisada na história e mapear algumas delas a partir de agora.
Como quem tenta discutir uma relação amorosa em crise e, para tanto, começa a revisitar coisas do passado, vamos tentar entender o que aconteceu ao jornalismo nos últimos 30 anos. Hoje em dia, as pessoas discutem a relação enviando o popular “textão”, pois não faremos diferente. Felizmente, o texto está dividido em tópicos e, dessa maneira, você não precisa ler tudo, mas apenas o que lhe interessar.
Índice
Mudanças no jornalismo a partir da popularização de tecnologias
Na maioria ou em grande parte das vezes, uma nova tecnologia não se populariza instantaneamente. Ela demora um tempo para cair nas graças do povo ou de utilizadores em massa. Este é o ponto de ebulição que levaremos em conta aqui. Vamos nos concentrar em quando as tecnologias se popularizaram e como elas começaram a influenciar o jornalismo positivamente ou negativamente a partir de então. Comecemos, então, pela popularização da internet.
Popularização da internet alavancou o jornalismo digital : em 1994, a internet comercial passou a ser lançada mundo afora, chegando ao Brasil no mesmo ano. Mesmo com conexão discada e lenta, ela permitiu as primeiras experiências de jornalismo digital online. Antes disso, o jornalismo digital era distribuído em CD-ROM e comprado nas bancas de jornais junto com revistas impressas, sendo boa parte delas revistas de jogos.Popularização dos motores de buscas fez a imprensa global depender de algoritmos : sistemas de buscas online existem desde o início dos anos 1990. Mas foi a partir do crescimento exponencial de um deles, o Google, nos anos 2000, que os algoritmos ganharam força. Agora, ao invés de escolher um jornal na vitrine de uma banca, o leitor recebe as notícias via navegadores, conforme regras de códigos de programação obscuros.Popularização da internet de alta velocidade gerou culto à velocidade na imprensa : entre 2000 e 2025, tecnologias como banda larga, 4G e 5G se tornaram acessíveis e substituíram a conexão discada. Ao possibilitarem maior agilidade à internet, elas ajudaram a acelerar o ciclo de notícias. No impresso, a notícia de hoje é publicada amanhã, mas no digital, ela tem que ser publicada imediatamente para gerar mais audiência e engajamento.Popularização dos CMSs facilitou a criação de novos veículos de imprensa online : os Content Management Systems (CMSs) são softwares que possibilitam a qualquer pessoa administrar um site com facilidade. O maior deles, o WordPress, existe desde 2003. Hoje, além do WordPress, há centenas de outros como o Ghost.org e o Joomla, com os quais é possível criar um site de notícias e provê-lo com conteúdo sem saber nada de programação.Popularização dos dispositivos móveis e redes sociais impulsionou o jornalismo cidadão : o Facebook surgiu como uma startup em 2004 e rapidamente caiu no gosto dos internautas. Na sequência, outras redes sociais começaram a se destacar. Em 2008, a ascensão dos smartphones e do sistema Android de aplicativos potencializou ainda mais a comunicação nas redes sociais. Da noite para o dia, todo cidadão virou jornalista, ainda que sem diploma.Popularização da computação em nuvem gerou infraestrutura flexível para o jornalismo : entre 2006 e 2010, serviços como o Amazon Web Services, Google Cloud e Microsoft Azure consolidaram a computação em nuvem, que permite armazenar e processar dados remotamente, entre outras vantagens. Empresas de jornalismo usam isso para criar redações distribuídas com colaboração em tempo real, acelerando a produção de conteúdo.Popularização dos softwares de análises fortaleceu o jornalismo de dados : por volta de 2009 a 2012, governos dos EUA e Brasil, entre outros países, começaram a criar plataformas de dados abertos, ao passo que mais ou menos na mesma época, surgiram softwares analíticos como o OpenRefine, por exemplo, que permitem organizar dados confusos, aumentando assim o potencial do jornalismo de dados.Popularização das plataformas de streaming diversificou os formatos jornalísticos : a partir de 2010, as plataformas de streaming começaram a crescer exorbitantemente, abrindo espaço para que produções jornalísticas pudessem ser veiculadas em plataformas como a Netflix, Amazon Prime Vídeo, Youtube e, mais recentemente, no TikTok. Proliferaram os podcasts, incluindo os de jornalismo, bem como os telejornais online.Popularização dos sistemas de pagamento online viabilizou modelo de assinatura digital : algoritmos são conhecidos por sugar trabalho jornalístico e também sua receita publicitária. Mas por volta de 2010, com a maturidade dos sistemas de pagamento online, várias empresas de jornalismo como o The New York Times e Folha de S.Paulo começaram a usar sistemas de paywall, que permite trancar o conteúdo e liberá-lo apenas para assinantes.Popularização das inteligências artificiais desafiou a autoria dos jornalistas : lançado em 2022, o ChatGPT chegou à internet como uma inteligência artificial capaz de produzir textos coerentes. A partir daí, passou a substituir redatores em diferentes contextos. Apesar das empresas de comunicação informarem publicamente que restringem o uso de IA, uma auditoria recente expôs o uso de IA em artigos de opinião em jornalões dos EUA.

Mudanças no jornalismo: era para simplificar, mas ficou mais complexo
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Paralelamente, e graças às tecnologias descritas neste artigo, acontecimentos como a cultura do grátis e o surgimento dos influenciadores digitais ajudaram a criar e ampliar a concorrência e a diminuir a receita no jornalismo, precarizando ainda mais o trabalho dos jornalistas, muitos dos quais agora vivem de pedir esmolas na internet, incluindo este que vos escreve.
As novas tecnologias das últimas três décadas que supostamente foram criadas para simplificar o dia a dia das pessoas acabaram tornando-o mais complexo, sobretudo no que diz respeito à comunicação social, devido ao surgimento de fenômenos como os das fake news e da desinformação em massa, muitas vezes para fins políticos e/ou antipolíticos.
Elas, as tecnologias, também criaram a figura do jornalista de sofá, que não tem diploma, e que não apura nada, mas só recicla conteúdo apurado por jornalistas profissionais, e que a partir disso cria fazendas de conteúdo na web, as quais desviam a atenção dos leitores, descredibilizam o jornalismo e precarizam a profissão.
Algumas flores no meio dos espinhos
As mudanças no jornalismo provocadas pelas diferentes tecnologias mencionadas neste artigo não foram todas ruins. Uma coisa boa que elas fizeram foi ajudar a reduzir o número de desertos de notícias, isto é, de cidades que não tinham, mas agora têm um ou mais veículos de imprensa.
Jornais de grande porte como o The New York Times (NYT), El País e O Globo perderam, a princípio, a publicidade e também assinantes de suas versões impressas. Mas com as tecnologias de pagamento online eles passaram a construir uma relação muito maior de assinantes, que em alguns casos ultrapassa o próprio país sede da publicação. De acordo com a newsletter Tendenci@s, no último trimestre de 2025 o NYT ganhou mais 460.000 chegando à incrível marca de 12,3 milhões de assinantes no mundo.
Outro aspecto positivo é que pequenos jornais independentes agora têm maior acesso ao público. Apesar de enfrentarem ampla concorrência de todos os lados, eles conseguem entregar conteúdo para um grande número de pessoas, influenciando a opinião pública, ajudando na alfabetização midiática, corrigindo notícias falsas ou incompletas, entre outras atividades.
De fato, o jornalismo em 2025 está irreconhecível em relação ao de 1995. Fosse um lutador de MMA, poderíamos dizer que ele tomou muitos diretos, ganchos, jabs, uppercuts; inúmeros chutes altos, baixos, médios, giratórios, joelhadas e cotoveladas; várias quedas de single leg, double leg, rasteiras, projeções de quadril; alguns mata-leões, triângulos, chaves de braço e de calcanhar. Golpes, muitos golpes. Mas sobreviveu. Ainda está na UTI, mas pelo tanto que já apanhou, até que passa bem.



